sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Filme 01 - Dor e empatia


Lá fora, mata-se um porco. Já ouço os grunhidos há bastante tempo e nem o som da televisão os abafa.

A dor foi inventada nos primórdios do processo de evolução. A quantidade de dor que já houve, que há e que está para vir, só permite que nos preocupemos com a nossa própria dor, ou quanto muito, com a dor que está mais próxima de nós no espaço e no tempo.

Tudo depende da distância a que se vê as coisas. Uma batalha entre dois exércitos se for vista de longe, do cimo de um monte, pode ser facilmente uma experiência esteticamente apelativa, tal como o efeito do napalm visto de um avião. Se nos afastarmos ainda mais e nos pusermos a uma distância da Terra suficiente para a fazermos desaparecer só com uma mão em frente, até deixamos de ver o que se passa (e nem precisamos de colocar a mão em frente).

Os barcos entram na água, os homens remam em direcção ao local onde foram avistadas as baleias, mais tarde simplesmente ligarão os motores, lançam os primeiros arpões, mais tarde dispararão um canhão.

O sentimento que prevalece aqui é também muito antigo: a excitação da caça e do perigo para a própria vida.

Sentimento mais recente pode ser o sentimento de fazer algo em grupo.

Sentimentos ainda mais recentes poderiam ter sido o de compaixão pelo sofrimento do animal que sangra durante horas enquanto é picado até à morte. Mas não devem ter havido... ou se calhar também coexistiram no meio do outro turbilhão de emoções. Ainda vou tentar descobrir.

O tamanho importa e a compaixão que nós sentimos pelo sofrimento de outro ser é afectada pelo tamanho dele. Não se sente o mesmo ao assistir à morte de um peixe de 5 cms, de 50cms, de um golfinho de metro e vinte ou de uma baleia com quase 20 metros. Mas não fica por aqui, claro.

Tem tudo a ver com a empatia, com a semelhança. Ainda por trás disto tudo está a cultura e educação.

Custa-me não tabelar de hipócrita ou no mínimo inconsciente esta protecção e preocupação com baleias. As baleias ao menos vivem toda a sua vida no seu meio. 99% dos animais que são criados especificamente para alimentação têm a vida mais desgraçada que se pode conceber e lá por a sua morte não incluir normalmente umas horas de sofrimento, toda a vida deles é sofrimento constante.

O porco já se calou e eu também por agora.

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